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O Despertar do Leão

O fenômeno ocorre tarde da noite, e apenas em raras ocasiões. Nessas noites, a bruma cobre Lisboa uma névoa que emana do rio e do mar, feita de lágrimas, água benta, suspiros de amor e nostalgia. É uma bruma única, tanto em elemento quanto em sentimento.

Nessa rara conjuntura, o leão do Marquês de Pombal acorda. Desdobra-se como uma fita de seda ao vento, despertando o corpo em ondas lentas que viajam da ponta do nariz à extremidade da cauda. Abandona o sono rígido com a dignidade, a determinação e a serenidade que lhe são inerentes.

Com elegância, ruma às Amoreiras, admirando de passagem o Aqueduto. Veloz, galga a colina do Castelo de São Jorge. Dali, embrenha-se por ruelas de riso e lamento, descendo até Alfama após saudar os heróis do Panteão com um rugido carinhoso. Do Panteão segue para a Baixa e, ao reencontrar o rio, contempla a Sé. Corre, felino alegre, ao longo do Tejo: cumprimenta a imponência dos Jerónimos, parabeniza os gigantes no Padrão dos Descobrimentos e alcança a Torre de Belém. Lá, convida o rinoceronte para um passeio, mas o bravo bicho prefere manter-se na sua vigília, guardando a entrada da cidade.

No caminho de volta, o leão caminha pausadamente. Detém-se sob uma janela para escutar Lisboa Menina e Moça. Mais adiante, um idoso ébrio entoa Lisboa Antiga, evocando tempos idos. Um jovem estudante, de capa negra aos ombros, declama com fervor: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”. O felino sorri ao ouvir a Balada de Lisboa, onde o mar se acaba e a terra principia.

Numa esquina escura, encostado calmamente a um poste, de mãos nos bolsos e olhar límpido, surge Alberto Caeiro. O leão aproxima-se e pergunta se o poeta reconhece nele a metáfora, o poder de Pombal. Caeiro responde:

Não, tu és apenas metal. Os homens que passam por ti perdem tempo a olhar-te e esquecem-se de observar as flores que adornam a praça. As flores são mais importantes.

Cabisbaixo após o veredito de Caeiro, o leão cruza-se com Álvaro de Campos. O engenheiro, com um cigarro apagado ao canto da boca, ajeita os óculos para observar o animal-estátua.

Vês-me insignificante também? – questiona o leão.

E o poeta, com a alma das suas Notas de Lisboa, responde:

Aquele mestre que ali passou… ele via as coisas como elas são, e isso é um dom terrível. Eu não. Eu vejo-te com o coração cheio de toda a literatura e de todo o fumo dos navios que já partiram do Tejo. Vejo o esforço de quem te moldou e o orgulho de uma cidade que precisava de um animal que não temesse o destino. Tu és o meu companheiro de insónia. Quantas vezes, no meu tédio de engenheiro, olhei para a tua pata firme e senti que, se tu aguentas o peso dessa coluna e desse Marquês, eu talvez consiga aguentar o peso de ser eu próprio!

Animado pela cordialidade de Campos, o leão regressa ao pedestal. Antes de saltar para o seu lugar de bronze, recebe a última observação desta peregrinação. Ricardo Reis, solene, diz-lhe:

Cumpre o teu destino de ser estátua. Sê igual a ti próprio. A maior glória de um ser, seja de bronze ou de carne, é não querer ser outra coisa senão aquilo que a Moira lhe ditou.

A bruma desfaz-se. É manhã. A manhã dos autocarros, das gentes apressadas, da energia vibrante. É a Lisboa da tristeza e da alegria, da saudade e da bondade, da riqueza e da miséria. Uma cidade humana. Completa.

CASOY, Julio. O Despertar do Leão. In: Panarra Pedro (Org.). Lisboa Uma Cidade Mágica, Lisboa: Chiado Books, 2026. p. 90-91

marques de pombal em azulejos

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