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METAMORFOSE

São gentis, os portugueses. Hospitaleiros, afáveis, prestativos. É provável que não exista europeu com maior grau de empatia do que o agradável luso.

Povo de gestos e palavras doces, onde a mansa humanidade se revela, este país é um reino maravilhoso onde a hospitalidade é quase um dever sagrado. Encontra-se nele a bondade, a doçura, a generosidade, a prontidão em se enternecer e em se dar; a simplicidade… Portugal é assim.

Cumprimentam a todo o momento: multiplicam-se os “bom-dia” e os “boa-tarde”, recebidos e oferecidos a cada instante. Têm paciência para ensinar o caminho ou dar direções detalhadas. E, se não logram fazer-se entender, não raras vezes acompanham quem indaga até ao local almejado.

Nas lojas e balcões, são mais do que vendedores: são conselheiros e confidentes. Nos salões de cabeleireiro, encontram-se psicólogos amadores e uma sólida solidariedade coletiva.

Porém, atenção: há um momento em que o cordial português se transmuta em fera bruta, desvendando um comportamento grosseiro e atitudes rudes. Abre-se um estojo de selvajarias, uma reserva de truculências, um manancial de horror inesperado que, latente e oculto, ali estava para infernar os cidadãos e alegrar os diabos.

Aquelas pessoas tão queridas e gentis assumem, de súbito, o vulto do Adamastor; adotam o Mostrengo do fundo do mar, acolhem a Fera Inominável e albergam o Dragão de São Jorge, numa maligna metamorfose.

O gatilho que ativa o monstro é o automóvel. Ao sentar-se ao volante, o génio lusitano dá lugar aos vândalos e hunos latentes. O rancor ruge solto. O ódio expresso em sentimento, pensamento, palavra e ação – governa as relações interpessoais. Ai de quem lhe cruze o caminho! Ai de quem ouse entrar nas cavernas de tetos negros do fim do mundo!

Gritam as buzinas, trombetas que dia e noite anunciam a horda assombrosa; protestam os travões com guinchos e chiados de zombies exaltados.

Permitam os santos que, a caminho do Quinto Império, se realize o exorcismo que espante estas malignidades e se recupere, enfim, o espírito nobre e gentil.

CASOY, Julio. Metamorfose. In: Rodrigues Luis (Org.). Isto de Ser Português,Carnaxide: Cordel d’Prata, 2026. p. 215-216

metamorfose do portugues

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